segunda-feira, 25 de junho de 2012

Resenha: “Londres e Paris no século XIX: O espetáculo da pobreza.”


O estudo da multidão e a aproximação do real para seus romances, parece ser o grande desafio dos escritores do século XIX, figuras marcantes como Zola, Vitor Hugo, Baudelaire, Dickens e Alan Poe, trazem em seus livros uma grande preocupação em colocar uma visão bastante realista dos problemas e dificuldades da vida cotidiana francesa e inglesa; fruto dessa análise encontramos diversos livros que retratam com bastante exatidão o que se passava nessas duas das mais importantes capitais do mundo, Londres e Paris.
            A multidão é um dos “acontecimentos” mais interessantes do século XIX nessas duas capitais do velho mundo, a organização e o poder sutilmente destilado da mão do estado são a chave para o entendimento dessa multidão que sob a luz do dia é composta por diversas pessoas indo ao trabalho, seja em passo lento, seja em passo mais apressado e muitas outras desempregadas, marginalizadas e que constituem a chamada pobreza. Na noite, se concentram os criminosos, as prostitutas e os boêmios, como disse Janin: “ A Paris da noite é assustadora; é o momento em que a nação noturna se põe em marcha”; ladrões e prostitutas vivem em becos e atrás de museus e palácios, tudo com o consentimento, ou pelo menos a complacência do poder.
             Com relação a multidão londrina, Alan Poe observa com muita propriedade as características marcantes de cada grupo de pessoas; muitos parecem pessoas certamente atarefadas e que parecem simplesmente com a intenção de abrir caminho por entre as outras; outros, classe que era mais numerosa, se mostravam inquietos com seus próprios movimentos. Poe observa ainda a “tribo” dos escreventes, que se diferem além do modo de andar, também pelas roupas, onde a classe de nível mais baixo fazia uso dos “restos” da classe mais alta em relação ao vestuário. A classe dos batedores de carteira também não pode ser esquecida, que segundo palavras de Alan Poe, ”cuja enormidade do punho de suas camisas deveria trai-los imediatamente”; logo depois em menor numero temos os jogadores, que usam todo o tipo de vestimenta, e eram reconhecidos pela expressão labial, pela pele amorenada e pela angulação dos dedos. Mendigos, prostitutas vendedores e operários começavam a aumentar à medida que a noite caía, cada vez mais com tipos de classes mais baixas ocupando o lugar das feições mais nobres que transitavam pela rua.
            Na proporção em que se desce de nível social, se vai percebendo o tratamento e a noção de marginalização imposta pelos governos às pessoas de menos sorte, a aglomeração e a acumulação de pessoas nos bairros pobres londrinos e parisienses é tanta que nas casas são usados até os porões de moradia, e em todo lugar se acumulam detritos e água suja, vidraças dificilmente se encontram inteiras e trabalhadores, como prática usual dividem lugar com doentes mendigos e prostitutas. A teoria da degeneração urbana vai cada vez mais agregando adeptos e confirmava a Idéia Sanitária que inspirava poetas, artistas e administradores da década de quarenta, que acreditavam que investir em infra-estrutura e obras no sentido do que chamamos hoje de saneamento básico, tinha um menor custo em relação aos custos da doença, pois era com uma preocupação em que por decorrência de uma epidemia ou algo do gênero se interrompesse o trabalho, algo que em Londres, até a década de sessenta gerou altos custos aos cofres públicos e privados. Além de todos esses fatores soma-se o trabalhador londrino da metrópole não ser bem visto ante os empregadores, pois é fraco e tem suas constituições físicas quebradiças. Em 1880 essas posições dos empregadores se afirmam com a teoria do darwinismo social, e a confirmação do imigrante como trabalhador mais indicado para empregos que exijam alta responsabilidade, sobrando ao londrino trabalhos casuais e nas docas. Em meados da década de sessenta a produção é dividida em etapas cada vez mais especificas, para então o uso da mão de obra barata e não tão qualificada encontrar seu espaço, aumentando ainda mais o nível de exploração sofrido pelos trabalhadores, que é acentuada com a instabilidade do mercado anos depois.
            As idéias que colocavam o quão gratificante e o quanto era enobrecedor o trabalho, começam a ser imputadas no modo de viver dos mais pobres, em uma tentativa de incluí-los de vez no mundo capitalista do consumo. Casas de Trabalho são criadas de certo modo em que o trabalhador desempregado queira mais a cada momento um trabalho para ter boa vida em família e saíssem dessas “workhouses” muito em breve. Porém, movimentos de desempregados em 1880 provocam temor e espanto, trazendo à tona pensamentos no sentido de acabar com toda essa classe revolucionária que se forma antes que estes “estrangulassem” as classes mais abastadas. Após uma assembléia em que mais de 20 000 homens desempregados das docas e da construção, que era de inicio pacifica, após algumas provocações tomou o rumo inverso e atentou contra todo tipo de propriedade riqueza ou privilégio em direção ao Hyde Park de Londres, passando pelo bairro rico de West End, que segundo jornais esteve na mão da multidão por algumas horas, já colocando a situação, com uma visão parcial e enviesada, como extremamente prejudicial e sem uma análise mais ampla do todo desse movimento ocorrido. Na direção de desvendar esse povo pintado pelos jornais, pela mídia e por diversos escritores como parte ruim e que deve ser eliminada das cidades aparece Michelet, dizendo que esse povo é apenas a exceção, que é feita e desenhada por economistas e criminalistas, que fazem estudos destinados à parte excepcional do povo, que assusta e que causa temor. Seu intuito é demonstrar que apenas quando se superar a idéia de duas nações dentro de uma mesma nação é que a burguesia entenderá que fazem parte de uma unidade.
            Na intenção explicita de realmente marginalizar esse povo, alem da repressão armada e da repressão feita pela mídia existente, temos a reurbanização de Paris, a chamada Haussmannização, que afasta o povo do centro e do oeste de Paris, e é empurrado para o extremo leste, onde é definitivamente instalado na periferia de Paris. No intuito de acabar com as freqüentes manifestações populares, o arquiteto e urbanista Haussmann usa de avenidas largas, para acabar com as pequenas “guerrilhas” de Paris e as “trincheiras” que eram levantadas quando havia algum descontentamento. Valorização do Arco do Triunfo e ação de formar em todas as ruas ao redor do Arco um desenho simétrico, limitando as fachadas e tamanhos dos prédios, além de tornar fato a maior intenção de todo esse projeto: acabar com a identidade construída nas ruas de Paris ao longo dos anos em relação às lutas sociais empreendidas pela massa.
             
(Resenha elaborada para a disciplina de História Contemporânea em minha graduação na PUC-SP)

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